Quarentena COVID19: Dia 37 – Se sentir útil x se sentir produtivo

Já passa mais de mês desde que me coloquei em isolamento. Aliás, hoje é meu primeiro dia realmente sozinha. O primeiro de um período que ninguém ainda sabe ao certo quanto durará. Hoje estou muito bem, obrigada. Acordei tarde, fiz um brunch solitário que está durando a tarde toda ao som de boa música, e pretendo assistir qualquer live que tiver mais tarde. Na realidade, não só o domingo, mas minha semana foi ótima: me exercitei, mantive minha rotina de trabalho controlada, cozinhei, li, ouvi música, vi filmes.

Entretanto, seria uma mentira dizer que tenho levado a quarentena assim. A prova disso é que eu estou com uma dor absurda de dente, que é o que me acontece toda vez que eu sou colocada sob período de estresse. A última vez foi em dezembro, pré prova final de uma cadeira que definitivamente eu tinha chance de ser aprovada, mas que achava que não seria (de fato, não fui). Desta vez, tive que cuidar de uns assuntos burocráticos que me obrigaram a sair de casa até uma gráfica e fiquei muito tensa porque estava dando errado e eu teria que sair mais. No dia seguinte meu siso recém nascido já estava latejando e segue até agora, neste exato momento, causando desconforto.

A verdade é que o último mês foi uma montanha russa na minha rotina e no meu humor, e essas duas coisas se retroalimentaram por todo o tempo: desregular minha rotina altera meu humor, que por sua vez altera minha rotina ao me levar à procrastinação. Ao afrouxar meus horários, notei meu humor e meu corpo reagir: estresse, irritabilidade, demora ao pegar no sono, dificuldade em sair da cama. Eu tenho uma consciência emocional muito grande (resultado de um bem aproveitado período de terapia), e senti que aos poucos estava me encaminhando ao quadro que estive quando morei na Casa do Estudante da UFRGS e estava desempregada.

Nos meus dias bons, eu me sentia praticamente uma personagem da Jane Austen (ou qualquer romance de época): estudando música, fazendo bolo, costurando, escrevendo meus pensamentos, desenhando e, principalmente, ansiosa por longas caminhadas.

Meus principais embates mentais, que notei nas redes não ser apenas meus, vinha das propagandas que circularam no início da quarentena sobre como se manter produtivo trabalhando em casa. Desde então, as pessoas compartilham seus treinos físicos, fotos trabalhando, cozinhando, lendo, fazendo cursos online. Isso tudo criou uma pressão que me fez mal, e concluí que não era obrigada a fazer coisas que eu não tinha interesse em fazer só pra dizer que aproveitei de forma saudável o tempo livre da quarentena. Porém, nisso também vi uma armadilha: com medo de cair na armadilha de “ser produtivo”, acabei me desorganizando e caindo na armadilha de “não me sentir útil”, por não estar fazendo realmente NADA dos meus dias. E vamos de surto.

O que me faltou? equilíbrio e auto-conhecimento. O que quero dizer? ninguém é obrigado a seguir aqueles papos de couch de “sua desculpa era falta de tempo – qual sua desculpa agora?” e etc. Acho que tanto a propaganda de produtividade quando a propaganda que nos livra da obrigação de sermos produtivos são falhas pois são mensagens pronta que chegam a todo tipo de público, cujas rotinas são diferentes. Acredito que a mensagem a ser passada nesse momento deveria ser: conheça-se. Conheça suas necessidades, conheça a sua rotina, conheça o que te traz tensão. Se você não costumava a fazer exercícios pesados antes, porque começar agora? É importante, sim, que o corpo se mantenha ativo de alguma forma já que não saímos e caminhamos como normalmente. Mas passar a fazer algo fora do seu normal, como treinos prontos da internet, pode acabar trazendo frustração e tensão ao invés de ajudar.

Manter uma rotina que se aproxime à normalidade traz o sentimento de controle sobre algo justamente nesse momento em que nos sentimos tão impotentes. Isso não quer dizer que você é obrigada a escrever X parágrafos de artigo por dia, ou finalizar tantas videoaulas por semana. Pode ser a coisa mais simples do mundo: café da manhã, ler jornal, aguar as plantas, almoçar, ver TV. Qualquer coisa que traga a sensação de controle da situação.

Se vê também muita gente sentindo pressão para serem artísticas e criativas. Não, ninguém é obrigado a descobrir a gravidade ou pintar um quadro durante a quarentena. Entretanto, a quarentena pode ser uma oportunidade para descobrir um novo hobby, ou para retomar algo que antigamente nos trazia bem estar e acabou se perdendo dentre as demandas da vida adulta. Estamos num período sensível em que podemos acabar por procurar alívios nos lugares errados, então porque não tentar algo que traga bem estar?

Por exemplo, eu comecei a escrever por hobby e postar aqui. Escrever é o hobby e postar aqui é a produção. Notei que a pressão de organizar os pensamentos que eu escrevia na agenda estavam começando a me trazer estresse, então parei. Faz um mês desde a última vez que escrevi sobre a quarentena por um motivo simples: eu não queria. E, ao mesmo tempo, meu diário de tópicos está cheio de anotações, onde mantive o hobby.

Enfim, é preciso encontrar o meio termo para não se sentir pressionado em seguir uma falsa produtividade e, ao mesmo tempo, não fugir de certo cronograma e acabar deprimido por se sentir pouco útil. Às vezes se sentir útil pode vir simplesmente de sair da cama e tomar banho, e está tudo bem.

Assim como, em outros tempos, nem todos os dias eram perfeitos, eles seguem não sendo agora. Tempos que cuidar para que esses sentimentos de frustração, maximizados pelos limites do isolamento, não acabem sendo internalizados.

Como tem se mantido sã(o) na quarentena? Comenta aí embaixo:

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